quarta-feira, 9 de março de 2011

Ross. Apenas isso.

Eu quero contar uma história. Prestar uma homenagem a alguém muito importante em minha vida e que sequer sabia ler ou escrever. Uma homenagem para alguém que me deu carinho e amor num dos momentos mais difícieis da minha vida. O Ross. Não o Ryan Ross, o homem a quem admiro apesar de tudo. O Ross meu melhor amigo. O Ross, meu cachorro.

Quando minha amiga Loiane veio aqui na minha casa, num dia qualquer ela disse para minha mãe o seguinte: "A senhora quer ganhar um cachorro?" Não havia se passado mais do que uma semana da morte da minha outra cadela, Jane, a qual eu não era tão apegada ao meu Ross. Minha mãe disse que não, mas eu disse que queria e com um pouco de lábia eu consegui fazer com que minha mãe aceitasse adotar um cachorro desde que eu cuidasse. Eu saí caminhando com a Loiane alguns metros até a casa de quem estava oferecendo os cachorros. A cena que eu vi me impressiona até hoje. Os filhotes de duas cadelas diferentes estavam todos amontoados dentro de um único balde, lutando por um espaço na borda. Ross era esperto, pisava nos outros para me chamar atenção e na verdade, ele não conseguiu. Eu estava interessada em adotar cachorro branquinho com manchas marrons que parecia muito com o Bogart do Brendon Urie. Mas aí quando eu disse "Quero o branquinho" a dona do cachorrinho disse "Esse branquinho já tem dono." e eu me vi obrigada a escolher outro cachorro.

Sorte minha! Ross virou o balde e veio fazer gracinhas para me agradar, como se me pedisse para que eu o tirasse daquele monte de cachorros e daquele balde. Ainda me pego pensando porque colocar uns quinze cachorrinhos e um balde? Mas isso não é da minha conta. Quando eu segurei Ross no colo, suas patinhas grudaram em minha roupa e, como todo cachorro, estava com medo da altura. Quando comecei a andar com ele para minha casa, o meu menininho deitou sua cabeça em meu ombro, como uma criança no colo de sua mãe, e chorou. Eu queria ir lá correndo e devolver, porque ele não queria se separar da mãe dele, dos irmãozinhos, e dos amiguinhos. 

Minha mãe se encantou com o Ross a primeira vista. Ele era esperto, mas um bocado medroso. Eu me lembro como foi árduo escolher o nome do cachorro. Eu queria que ele se chamasse Scooby Doo, mas minha mãe bateu o pé que não queria. Como eu tinha um peixinho beta chamado Phoebe, por causa de F.R.I.E.N.D.S, minha mãe sugeriu Ross, eu aceitei. Ross por causa do seriado e Ross por causa de um dos caras mais geniais do mundo, o guitarrista George Ryan Ross.  Decido o nome, outras coisas viriam. 

Eu nunca tive muito controle de mim quando o quesito era corrigir. Então, quando Ross aprontou a primeira arte, que eu não lembro o que foi, eu o joguei com força no chão, ele passou uns cinco minutos chorando sem parar. Eu não me lembro porquê, só me lembro de ter corrido para ver o que eu tinha feito com ele e se o havia machucado. Havia dado tudo certo. Lembro-me também de quando a bicleta da minha mãe caiu em cima dele, foi bem engraçado, porque ele levou um susto muito grande e porque ele adquiriu uma mancha na cauda. Uma mancha preta que nunca mais saiu. 

Dormir com o Ross era um problema. Não porque ele chorava muito, mas porque ele era hiperativo demais. Era hiperatividade exalando pelos pórus caninos dele. Então, minha mãe deu-lhe uma lata como brinquedo, e ele gostava de entrar dentro dessa lata, fazendo com que ele ficasse cego e não conseguisse sair de lá. E com aquilo na cabeça ele andava, batendo a cabeça nas paredes e acordando toda a vizinhança. Por falar em acordar, Ross era o primeiro a acordar da  casa. Ao primeiro raio de sol ele achava que era hora do café da manhã e começava a gritar fortemente, como se alguém estivesse o maltratando. E aquele escândalo por comida era a cada duas horas. 

E todo essa história de aprontar, ele não tinha sequer três meses de vida!

O tempo passou muito rápido e o choro por comida começou a se transformar em exigências em rosnado. Eu tratei de corrigir brigando com ele, mas Ross não era do tipo que costumava obedecer, ele fazia o que bem queria, quando queria e porque queria. Eu achava engraçado, porque ele me respeitava, mas já a minha mãe, não. Uma carinha de coitado a mais  e o Ross tinha tudo.Mas o mais importante no Ross veio  com o tempo. Ele me amava incondicionalmente da mesma forma que eu o fazia. Eu o eduquei, eu dei de comer quando ele ficou doente, eu fazia carinho, eu brincava com ele. Eu sempre estive perto dele pra tudo e ele era o único que tentava me animar quando eu chorava.

Ross era secão, como eu sou. Quando ele me via chorar por alguma coisa, ele vinha até mim uma vez, como se perguntasse o que estava acontecendo comigo, saía de perto, mas voltava uns minutos depois para saber se eu tinha parado. Se não havia parado ainda, Ross começava a me lamber e sentava-se ao meu lado. Na verdade, ele era o único que eu deixava me ver chorando. Acho que ele aprendeu comigo a ser meio turrona. 

No dia nove de março do ano passado eu acordei com tosses. Eram um mudo pedido de socorro que eu não interpretei. Quando finalmente abri os olhos, meu cachorro estava agonizando. Eu estava sozinha em casa e logo quando minha mãe chegou, a sina por ajuda médica não chegava. Por várias horas eu insisti por médico, e as quatro horas da tarde que eles vieram buscar. Eu já tinha chorado demais e Ross havia me visto chorar. Ele queria vir até mim e dizer que tudo ficaria bem, eu estava dizendo isso a ele naquele momento, mas eu sabia que ele estava mal. Exatamente a essa hora: 17:40, meu bebê, meu trocinho,  meu Ross, meu melhor amigo, me deixava. 

Não sei se algum dia eu vou ter outro cachorro. Não sei se um dia eu vou amar tanto ouro cachorro quanto eu amei - e ainda amo - o meu pequeno trocinho, mas sei que melhor cachorro que Ross Aparecido Coelho Gomes da Silva não existe e duvido muito que existirá algum dia. Hoje, nove de março de dois mil e onze está fazendo um ano que ele me deixou e eu ainda sinto falta da companhia agradável dele, de acordar e não ligar pra ninguém, mas de correr feito uma desesperada para dizer "bom dia, Ross" e ver aquele rabinho  manchado de gracha balançando para mim. Ninguém tem noção da tristeza em que sinto hoje e da solidão que carrego em meu peito. Eu ainda quero que alguém me ame, da mesma forma que o Ross me amou.

Sua Lully.

Um comentário:

  1. Eu poderia dizer que imagino sua dor, mas não posso porque nunca passei por uma situação assim. É difícil demais quando se perde alguém que se ama, e animais de estimação também fazem parte disso. Cachorros são os animais mais sinceros que existem, e é por isso que eu os adoro.
    Eu sei que sua dor e saudade do Ross nunca vai passar, mas a vida é assim, infelizmente. ):
    Espero que você seja feliz, Lulls!

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