sexta-feira, 14 de junho de 2013

Revolta das Passagens.

Não me lembro de quantas vezes somente durante esse ano, me peguei conversando com minha mãe a respeito de militantes políticos. Geralmente, ela e eu, caímos nessa conversa quando tentamos entender a decadência das músicas de sucesso no Brasil. Nos anos 60 e 70, o Brasil vivia em uma época ditatorial, com atos constitucionais que favoreciam apenas aos militares. 

Lembro-me bem quando minha professora de história falou sobre a composição da música Cálice de Chico Buarque. Ela disse que a música só passou porque o pessoal do comitê da censura só leu a primeira linha da música e a liberaram, achando que era algo religioso: "Pai, afasta de mim esse cálice. Afasta de mim esse cálice de vinho tinto de sangue" e quando o comitê de censura percebeu... Era tarde demais. A música estava lá, estourada nas paradas de sucesso e pronto. Era completamente visível a insatisfação do povo. Nos anos 80, Renato Russo também usou músicas para protestar, Cazuza. Faroeste Caboclo é a história de um rapaz que cresceu na vida através do tráfico de drogas. Será, e tantas outras músicas. Até Mamonas Assassinas foi uma banda de protesto. Escute bem a música Jumento Celestino falando sobre a migração dos brasileiros de forma bem humorada. 

Até aí, okay. Quando começo a refletir sobre essas coisas, eu começo a pensar em como os militantes que morreram em campos de tortura estariam entristecidos com o povo pacífico e gente boa que aceita tudo o que lhe é imposto. E aí, eu fico com vergonha porque me tornei parte disso. Quando eu estudava, não aceitávamos tudo o que era imposto, não a minha sala. Protestamos vezes demais, gritamos e batíamos o pé. Só que agora, com isso de não estudar, qualquer coisa que me revolte, eu sou sozinha. Nesses últimos quatro dias, um sonho meu se realiza. Ver os brasileiros na rua, gritando por algo que almejam. Sim, um sonho secreto. Nunca gostei de ser parte de um povo pacífico. Por que eu não estou nessa militância? Minha cidade não tem transporte público. Até tentaram implantar, mas a empresa faliu porque ninguém usava. 

Eu disse no Facebook que me absteria, mas não vou. Não mesmo. Meus dedos coçaram e me incomodaram para caramba a esse respeito. Existem dois pesos e duas medidas, existem militantes e militantes. A passeata seguiu pacífica até um certo ponto e depois perdeu o controle e deu merda. Multidão quando sai de controle dá merda! Polícia quando perde a razão dá mais merda ainda. Não importa quem começou, se polícia ou se militante, a manifestação acabou na hora que um jornalista foi agredido e preso de graça e quando um policial, que nem era da tropa de choque, foi tentar pedir pra que um grupo parasse de pichar as paredes de um prédio histórico e acabou linchado. Ou seja, os dois lados perderam o controle. Os policiais esqueceram que todos aqueles estudantes são seres humanos e que merecem respeito e que existe uma Convenção de Genebra contra tortura e maus tratos e os militantes se esqueceram que todos aqueles policiais estavam ali não porque queriam, mas porque estavam trabalhando.

Como dito, há dois pesos e duas medidas. Não conheço, na história mundial, qualquer direito que tenha sido conseguido sem luta e não luta ordeira. Se esse manifesto não fosse exatamente como está, meus caros,  não seria ouvido. A minha mãe classifica isso como "um grito desumano na esperança de ser escutado". Não sou a favor de depredação de nada! Sabe por quê? Porque quem vai pagar são os impostos que o Brasileiro paga. Não confio em manifestação ordeira, não funciona de nada.

E se alguém me disser que fazer tudo isso por vinte centavos é fazer tempestade em copo d'água, eu vou dizer que, além do transporte público nos grandes centros (sem querer elogiar) é um lixo, inseguro, ineficaz e fazer com que as pessoas andem comprimidas em centímetros quadrados, muitos desses pais de família pegam três ou quatro ônibus pra chegar no seu trabalho, ir e voltar. Isso é injusto. Um cidadão ter que perder um dia do seu trabalho porque o transporte público é um lixo completo. Muitos ônibus não param por lotação total e muitos por falta de vergonha na cara.  Vinte centavos não é um valor ínfimo? O governo paga, para a merenda escolar, R$ 0,17 por aluno nas escolas públicas do Brasil. 0,17 centavos. Supostamente o aluno tem que ter uma refeição decente com dezessete centavos.

Enfim. Era o que eu tinha a dizer. E, muito obrigada, Deus, por não me deixar morrer sem ver uma manifestação, uma coisa que eu vou chamar de "Revolta das Passagens", do povo brasileiro.

Sua Lully.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Eu dando uma de RPH.

Como criar personagens fora do convencional. 

De repente, você acha um RP incrível, ativo, lindo e maravilhoso. Os personagens são incríveis, os players são incríveis, o plot é incrível, mas você é daquele tipo de pessoa que não consegue interpretar personagens prontos? Eis que seus problemas acabaram.  Acordei com vontade de escrever um guia sobre como fazer um personagem ser completamente fora do convencional.

Primeiro, tenha em mente que sempre tenha alguém que vai torcer o nariz pro teu personagem. Vão dizer que ele é esquisito sem conhecê-lo. Meu conselho? Ligue o “foda-se”. Se você quer criar um personagem fora do convencional, você tem que ter, primeiramente, a mente aberta ou não adianta nada.

Segundo, crie apenas aquilo que você tem certeza que vai conseguir interpretar ou você vai descaracterizar todo o personagem. E não existe nada pior que um personagem diferente da ficha, acredite.  Com vocês, vou mostrar um personagem meu que eu montei usando esse esquema?
Mas vamos a coisa toda de fato.

 Escolha o FC: Não se importe com o fato de ser underused ou overused. Apenas escolha alguém que você goste, que goste de colecionar gifs dessa pessoa, que admire e conheça o trabalho dela. É sempre importante. Vou escolher meu segundo ator favorito: Chris Evans.

 Escolha o nome: Sei que tem gente que acha que o nome é a última coisa que você deve escolher, mas eu discordo. O nome, ao menos pra mim, passa sensações, motivações e até parte da personalidade. Em religiões como os judeus acreditam que o nome está atrelado a tudo o que a pessoa vai ser. Se você não sabe o que escolher, faça homenagens! Como assim? Simples! Pegue dois nomes de lugares aleatórios que você goste (filmes, seriados, livros, fanfics, etc) e os junte. O personagem em questão é Troy Cooper. Troy vem do doutor Christian Troy de Nip/Tuck e Cooper vem do doutor Sheldon Cooper de The Big Bang Theory.

3Leia bem o plot do RP: O plot está lá não só para direcionar o jogo, mas também a criação de personagens OC. Não dá pra você criar um personagem que vive no século XXI pra um RP que se passa no século XIX ou vice-versa. Tenha muito cuidado com isso. Nada é mais chato pra moderação que em um turno IC dos anos 70, seu personagem apareça com iPod, dançando e cantando Maroon 5. Pesquise a época, costumes da época, bandas que tinham na época para que você pode usar na criação do seu personagem. Se for do futuro (como é o caso do RP que eu criei o Troy), tenha em mente que absolutamente tudo o que se passa até 2013 é do passado, então, os gostos de seu personagem vai acabar sendo retro.

 Lembre-se também que você está reblogando no Tumblr do seu personagem e não no seu. Os gostos dele refletem a personalidade dele. Então, se ele gosta de um determinado filme de ação e você rebloga um de romance porque você gosta é incoerente. Lembre-se sempre disso.

 O meu Troy gosta de Beatles, de Elvis Presley, Maroon 5, Plain White T’s... O filme favorito dele é The Losers como os quadrinhos favoritos dele também são da edição especial dos The Losers. O Troy gosta de filmes de ação, gosta de adrenalina, gosta de altura. As pessoas que turnam com ele diz que o Troy é um herói que tem tudo pra ser vilão. Uma dessas pessoas o descreveu como “Troy, o herói com uma pitadinha de vilão”.

Escolha a história: Em um pedaço de papel, escreva tudo o que você quer que ele tenha passado. É o que ele passou que vai definir o que ele se tornou no presente. Assim como nós, players, os nossos personagens são frutos do meio em que ele vive/viveu, das crenças, dos ensinamentos dos pais/tutores e do convívio com os amigos. Com a história já em mente, calcule tudo. Sim, calcule. Não adianta nada você ter um personagem de 15 anos que tenha passado por uma centena de turbulências que ele só teria muito mais pra frente. Amadurecimento vem com erros ou acertos, tenha isso sempre em mente. Normalmente, acho que 25 é uma idade que dá pra ter bastante coisa no passado e ter um futuro inteiro pela frente. Quanto maior a idade, mais complexo o personagem. Quando tiver escrevendo, lembre-se também de que a vida não é só um dramalhão! Seu personagem tem que ter alegrias na vida. Pode passar por “perrengues”, mas ele tem que ter alegrias. 
O Troy, meu personagem do exemplo, tem 25 anos, fez faculdade de química (20 quase 21 aos 24), formado por Harvard. Ele foi abusado sexualmente na infância (foi abusado dos 6 aos 12), entrou em depressão e tentou se matar usando radiação (tentou se matar aos 10). Não deu certo e ele foi mandado para um colégio interno em Londres (um colégio militar, foi mandado aos 12 quase completando 13 e permaneceu até os 15 quase 16) onde ele conheceu a maior paixão da vida dele: motovelocidade, mas em Londres ele também conheceu as drogas, a banalização do sexo e orgias. Voltou pra América quando sofreu uma overdose e acordou numa clínica para reabilitação onde ficou por pouco mais de seis meses. Nove meses depois ele conheceu a mulher de sua vida, Charlotte (com 16) e um ano depois ele começou a namorar com ela. Ele foi traído e terminou com ela dois anos depois, com 18. Passou um ano dentro dum quarto escuro com crise depressiva e passou seis meses viajando de moto antes de ir pra universidade. Basicamente, de forma resumida, esse é o passado do meu Troy.

Escolha a personalidade: Esse ponto é um bocado delicado porque é isso aqui que vai fazer o seu personagem fora do convencional ou não. Primeiro, vamos entrar em algo que pessoas falam e eu discordo plenamente “Ah, FC X você deve usar pra esse tipo de personalidade”. Esse conceito, mande pro inferno de onde ele veio! Lembre-se de uma coisa: as aparências enganam e enganam muito! Isso já era dito por seus avós, bisavós e até ancestrais. Eles nunca estiveram mais certos.  Por isso que eu disse que é importante que você conheça o trabalho do FC escolhido. Você percebeu que ali em cima eu escrevo parte da história do Troy como ex-dependente químico? Coisas que eu omiti foram que ele matou o melhor amigo, que ele tem problemas com o álcool, que a alimentação dele é digna de alguém chamado Dean Winchester, que ele fuma, mas que mesmo com tudo isso não é sedentário. 

Bem, o Chris Evans é conhecido por papeis como o Capitão América que é o mais certinho e o mais chato dos heróis e provavelmente tem gente torcendo o nariz para o que eu to escrevendo aqui, já que o Chris Evans diz que a bebida favorita dele é água. Só que aí você me pergunta de onde eu tirei que o Chris poderia ser perfeito pro Troy e eu respondo: uma junção das coisas que eu gosto, do trabalho do Chris e do próprio Chris. Calma, eu explico. Em filmes como London (2005), Chris interpreta um homem chamado Syd que era um narcisista mesquinho que, depois de sofrer uma overdose, perdeu sua namorada. Em Puncture (“Código de Honra” no Brasil) Chris interpreta um homem chamado Mike Wiess que foi um advogado viciado em cocaína que, supostamente, morreu de overdose. 

Sempre digo que se o FC fez papeis que dão base ao seu projeto, vale a pena! Depois lembre-se que ele fez o Johnny Storm em Fantastic Four, um herói irresponsável que só quer saber de farra, festa, bebida e mulheres, mas que mesmo assim tem coragem de arriscar a vida em batalha contra as forças do mal porque seu coração é bom.  O Troy é uma junção de tudo isso, com mais coisas!

Quando for criar algo fora do convencional, não pense só em ser rebelde, nem só em ser vadia. Sempre digo que o Troy tem dentro de si um homem que grita por certas responsabilidades. Ele é capaz de andar de moto, atravessando tudo quanto for sinal vermelho em alta velocidade, mas é incapaz de fazer isso tudo sem capacete. Capaz de assaltar uma loja, levar o dinheiro da registradora,mas pagar pelas bebidas que levar, compreende? Plots não-convencionais pode estar ligados a você ousar. Interpretar golpistas, corruptos, políticos, mafiosos moralistas, porém sem escrúpulos. Incestos, BDSM, usar alguma síndrome rara para justificar o comportamento infundado ( O Troy, por exemplo, tem tendências suicidas fortes por conta de uma depressão que ele não tratou). Sugiro Síndromes como Riley-Day (ausência de dor), Vampirismo Real, Depressão (aqui você pode colocar: depressão pós-parto, ou pela perda de alguém querido), Sadismo (não só o sexual, mas sadismo mesmo, de matar gatos para vê-los sofrer), Dismorfofobia (e aqui entra não só a busca pela perfeição, mas bulimia, anorexia nervosa, vício em cirurgias plásticas, dietas mirabolantes).

Ouse! Crie patricinhas (que é raro ver em RPG, porque associam patricinhas a vadias burras e é mais fácil você ver em RP gente que odeia patricinhas, que anda de skate e fica mostrando o dedo e comendo hambúrguer, Blerg! O mundo tem muita diversidade para ser explorada), mauricinhos, esportistas... Enfim. Atualmente, os não convencionais estão sendo muito mais personagens certinhos (mas com defeitos) do que os foras da lei.

Escolha a profissão: Sempre acho que a profissão de alguém é forjada pelas crenças e opiniões deles. Quando se é criança e, por exemplo, quer ser um bombeiro quando crescer, a resposta geralmente vai estar ligada a ajudar pessoas e ser herói. Se quer ser um bandido, crie uma história para ele e como ele chegou a isso. Não necessariamente precisa ser um drama atrás do outro. Tem gente do colarinho branco cometendo crimes somente por ambição. Fazer um personagem que visa dinheiro acima de  qualquer escrúpulo vai ser bem interessante. O caso do Troy, nisso, é diferente. Ele tem ódio por rotina e num protesto a isso ele não trabalha, embora tenha uma oferta de emprego. Se escolher que seu personagem seja bandido, por exemplo, faça com que ele se esconda bem para que as pessoas olhem para ele como um desempregado, um homem de negócios e nunca como um bandido ou você nunca vai conseguir fazer com que ele se relacione com ninguém.

Olhe a necessidade do RP: Um RP com personagens apenas certinhos (ou seja, dentro da lei), bem, fica chato. Um RP com personagens apenas fora da lei, fica mais chato ainda! Seja sensível ao criar um personagem que você possa fazê-lo se relacionar com todo mundo, sem perder o seu foco. Lembre-se sempre, pessoas mudam. Dê sempre uma lidinha na ficha do seu personagem pra se lembrar dele, de como ele foi criado e de como ele era antes, pra você não fugir muito daquilo. Nunca se esqueça que há, na literatura, mocinhos, bandidos e anti-heróis (e normalmente os vilões e os anti-heróis são os mais amados). Personagens obsessivos e violentos estão em falta nos RPs. Eu, raramente, vejo.

8.       Leia os outros personagens: Para você ter uma noção de quem é quem no RP, não dar gafes. Não existe nada que irrite mais um player que o seu personagem ser, por exemplo, um ator conhecido e um personagem manda logo um “nunca ouvi falar”. Poxa, se está na ficha dele “mundialmente famoso” pelo amor de Deus, “nunca ouvi falar em você”, “não sei quem você é” tem que ser oficialmente banido!
Bem, agora, divirta-se! Eu acho que isso era tudo o que eu tinha para falar. Não acho que tenha ficado bom e esse guia pode ser usado para criar qualquer personagem, não só um fora do convencional.

Beijo, beijo.
Sua Lully.