Não me lembro de quantas vezes somente durante esse ano, me peguei conversando com minha mãe a respeito de militantes políticos. Geralmente, ela e eu, caímos nessa conversa quando tentamos entender a decadência das músicas de sucesso no Brasil. Nos anos 60 e 70, o Brasil vivia em uma época ditatorial, com atos constitucionais que favoreciam apenas aos militares.
Lembro-me bem quando minha professora de história falou sobre a composição da música Cálice de Chico Buarque. Ela disse que a música só passou porque o pessoal do comitê da censura só leu a primeira linha da música e a liberaram, achando que era algo religioso: "Pai, afasta de mim esse cálice. Afasta de mim esse cálice de vinho tinto de sangue" e quando o comitê de censura percebeu... Era tarde demais. A música estava lá, estourada nas paradas de sucesso e pronto. Era completamente visível a insatisfação do povo. Nos anos 80, Renato Russo também usou músicas para protestar, Cazuza. Faroeste Caboclo é a história de um rapaz que cresceu na vida através do tráfico de drogas. Será, e tantas outras músicas. Até Mamonas Assassinas foi uma banda de protesto. Escute bem a música Jumento Celestino falando sobre a migração dos brasileiros de forma bem humorada.
Até aí, okay. Quando começo a refletir sobre essas coisas, eu começo a pensar em como os militantes que morreram em campos de tortura estariam entristecidos com o povo pacífico e gente boa que aceita tudo o que lhe é imposto. E aí, eu fico com vergonha porque me tornei parte disso. Quando eu estudava, não aceitávamos tudo o que era imposto, não a minha sala. Protestamos vezes demais, gritamos e batíamos o pé. Só que agora, com isso de não estudar, qualquer coisa que me revolte, eu sou sozinha. Nesses últimos quatro dias, um sonho meu se realiza. Ver os brasileiros na rua, gritando por algo que almejam. Sim, um sonho secreto. Nunca gostei de ser parte de um povo pacífico. Por que eu não estou nessa militância? Minha cidade não tem transporte público. Até tentaram implantar, mas a empresa faliu porque ninguém usava.
Eu disse no Facebook que me absteria, mas não vou. Não mesmo. Meus dedos coçaram e me incomodaram para caramba a esse respeito. Existem dois pesos e duas medidas, existem militantes e militantes. A passeata seguiu pacífica até um certo ponto e depois perdeu o controle e deu merda. Multidão quando sai de controle dá merda! Polícia quando perde a razão dá mais merda ainda. Não importa quem começou, se polícia ou se militante, a manifestação acabou na hora que um jornalista foi agredido e preso de graça e quando um policial, que nem era da tropa de choque, foi tentar pedir pra que um grupo parasse de pichar as paredes de um prédio histórico e acabou linchado. Ou seja, os dois lados perderam o controle. Os policiais esqueceram que todos aqueles estudantes são seres humanos e que merecem respeito e que existe uma Convenção de Genebra contra tortura e maus tratos e os militantes se esqueceram que todos aqueles policiais estavam ali não porque queriam, mas porque estavam trabalhando.
Como dito, há dois pesos e duas medidas. Não conheço, na história mundial, qualquer direito que tenha sido conseguido sem luta e não luta ordeira. Se esse manifesto não fosse exatamente como está, meus caros, não seria ouvido. A minha mãe classifica isso como "um grito desumano na esperança de ser escutado". Não sou a favor de depredação de nada! Sabe por quê? Porque quem vai pagar são os impostos que o Brasileiro paga. Não confio em manifestação ordeira, não funciona de nada.
E se alguém me disser que fazer tudo isso por vinte centavos é fazer tempestade em copo d'água, eu vou dizer que, além do transporte público nos grandes centros (sem querer elogiar) é um lixo, inseguro, ineficaz e fazer com que as pessoas andem comprimidas em centímetros quadrados, muitos desses pais de família pegam três ou quatro ônibus pra chegar no seu trabalho, ir e voltar. Isso é injusto. Um cidadão ter que perder um dia do seu trabalho porque o transporte público é um lixo completo. Muitos ônibus não param por lotação total e muitos por falta de vergonha na cara. Vinte centavos não é um valor ínfimo? O governo paga, para a merenda escolar, R$ 0,17 por aluno nas escolas públicas do Brasil. 0,17 centavos. Supostamente o aluno tem que ter uma refeição decente com dezessete centavos.
Enfim. Era o que eu tinha a dizer. E, muito obrigada, Deus, por não me deixar morrer sem ver uma manifestação, uma coisa que eu vou chamar de "Revolta das Passagens", do povo brasileiro.
Sua Lully.
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