Flynn estava
nos estábulos completamente sozinho. Pouco estava a fim de conversar ou de
escutar alguém. Aquele tipo de momento era um daqueles que o escravo preferia a
solidão ao invés da companhia, porque na solidão, ele ajuntava seus pedaços e
enxergava a saída. A melhor saída. Muitos preferem ir pela saída mais fácil, mas
o escravo sempre pegava a que fosse mais racional, com menos efeitos colaterais
e mais dor.
Mais dor pra
si.
Era incrível
como às vezes a inteligência e o altruísmo andavam juntos, grudados, quase como
se fosse uma coisa só. No entanto, Flynn era aquele tipo de pessoa que poderia
fazer tudo e mais um pouco por amor, até danificar-se a si mesmo ao ponto de
não ter mais conserto. Às vezes acreditava que não havia atingido o nível certo
de dor emocional ou preferia acreditar que se conseguisse chegar nesse nível,
ele perderia a capacidade de sentir.
Sentado em
meio aos cavalos, Flynn sentia-se em casa.
Calmo e pacífico, mas com a mente cheia de coisas. E essa última parte era a que ele queria
simplesmente parar, especialmente quando a voz de Catharine lhe vinha na cabeça
com a fatídica frase que existiam coisas que eram piores do que a morte. Ele se
sentia derrotado, fraco. Havia falhado outra vez com Aurélien, mesmo que sem
que este soubesse. Sua falha estava em perdoá-lo.
Ao contrário
do que o outro imaginava, sim, entendia que um príncipe herdeiro tinha suas
responsabilidades e todo esse blá-blá-blá e sabia que toda essa consequência
vinha de seu ato impensado. Talvez Flynn tivesse que perdoar a si mesmo antes
de perdoar Aurélien. A morte do rei tinha sido a gota d’água que fez tudo
aquilo acontecer e ele queria, de verdade, simplesmente parar de sentir tudo
aquilo para simplesmente ser alguém melhor.
Só que um
som de uma voz doce e calma veio em sua direção, despertando-o de pensamentos
como àqueles. Pensamentos esses que o esmagavam por dentro e não o deixava
demonstrar para as pessoas, mas que se o rei Aurélien aparecesse ali, saberia o
quão era difícil para o outro e bastaria um olhar como tinha sido no maldito
casamento. “Hey. Será que a gente
poderia conversar?”
Flynn se
levantou, bateu as mãos nas calças que usava e olhou pra cima, sem dizer uma
palavra sequer. Ele poderia ter dito não e talvez parar até com a cabeça fora
do corpo, mas o silêncio foi a resposta mais inteligente que encontrou e, como
dito antes, Flynn sempre pega a saída inteligente e não a mais fácil ou a menos
dolorosa. E a mulher também ficou ali em
silêncio, apenas olhando para o escravo que mantinha seus olhos vazios e a
expressão concentrada em um ponto qualquer do lugar que não fosse o rosto dela.
Segundos pareciam eternidades e o silêncio era absoluto, mortal e estranho.
Talvez Mary
pensasse que Flynn precisasse de alguém pra conversar, mas o que ela não
contava era com o quão resistente aquele escravo poderia ser. Com o quão suas
convicções raramente poderiam ser abaladas e o quão pouco ele se importava
consigo mesmo. Talvez menos do que ele
respeitasse a ela.
“Olha, eu
não sou uma pessoa tola.” Mary finalmente quebrou o silêncio. “Meus pais me
educaram para ser uma rainha e a minha mãe me explicou que o papel de uma
rainha não é apenas ser bonita e ficar posando para telas ao lado do esposo e
procriar. E no dia que eu conheci o Aurélien eu já sabia que eu precisava
observar tudo há minha volta. E assim eu venho fazendo desde àquele tempo.
Desde que eu vinha à França para ser cortejada pelo Aurélien.”
Bons tempos
eram aqueles. Flynn só queria poder voltar para lá e viver para sempre. Um tempo em que não existiam preocupações
visíveis e que sempre estariam juntos não importava o que acontecesse. A teoria
era sempre tão mais simples do que na prática.
Flynn chegava a sentir as gotas de suor lhe correr pela têmpora
gentilmente. Talvez o escravo tivesse
que reavaliar seus conceitos sobre aquela garota que parecia ser completamente
inofensiva e sem mérito. Sendo assim,
virou-se de costas para a rainha e
ajuntou as duas mãos a fim de se conter. Falar tudo o que pensava para uma
rainha era ser insano.
Se Flynn
cometesse mais um ato impensado, Flynn não ia conviver bem com isso. Bastava
Catherine empenhada em fazer da sua vida um inferno – e era difícil admitir que
ela estava conseguindo. Tudo era muito pior do que a morte. Esperar pela ordem
do rei que acabaria com a sua agonia de uma vez por todas. A saída mais fácil
para o escravo e a mais inteligente para o rei.
Mas Aurélien
teria estrutura para suportar esse tipo de ordem?
“Você poderia se virar pra mim
enquanto eu falo?”
Perguntou a rainha com sua voz calma. Flynn era quem já estava ficando irritado
com o modo com que Mary falava. Não sabia se porque começava a soar falso
demais ou se era porque não conseguia suportar gente que beirava à falta de voz
e que estava preso a amarras supostamente mais fortes do que eles.
“No começo, Flynn, eu achava que era
impressão.”
Continuou ela. “Que eu estava vendo
coisas onde não tinha. Toda vez que eu vinha aqui, o Aurélien era um cavalheiro
comigo, me tratava como ninguém jamais me tratou com aquele jeito
encantadoramente contido que você já deve estar mais do que familiarizado. Só
que bastava você aparecer, ainda que fosse tão rápido quanto um piscar de olhos
e ele se tornava mais distante, até medroso. Eu nunca soube o que realmente
acontecia. E talvez eu venha a morrer sem entender de fato.”
A mulher
pausou, esperando que Flynn dissesse qualquer
coisa, mas o silêncio continuava. Era como se ela estivesse falando com o tumulo
do escravo, olhando para uma pintura das costas dele. Não ele não ficou de
frente para ela. Não tinha forças para ouvir qualquer coisa sem cometer
qualquer loucura, sem falar demais. Seu coração batia apertado e sua
curiosidade aguçada. Queria saber aonde ela chegaria.
“Então eu vim morar nesse castelo que
é incrível. O casamento foi adiantado de uma hora para outra porque o rei havia
falecido. Para meus pais foi dito que foi uma morte natural, mas ninguém aqui
fala disso, me faz pensar que não teve nada de muito natural nisso...” Quando Mary disse isso, uma lágrima caiu pelos olhos azuis
do escravo que tratou de limpá-la logo de uma vez. Não havia chance de que
alguém fosse lidar com seu suplício. Flynn tinha vontade de dizer que havia
arrancado do corpo do antigo rei, a sua cabeça para ver se a mulher era capaz de
fazer algo por ele. Só que Mary era tão fraca como era seu amado. Sim, as
coisas tinham mudado muito, mas não ao ponto do rei ter se libertado de suas
amarras. “De qualquer forma, Flynn, o que realmente me impactou foi que minha
sogra levou um escravo com ela para
meu casamento. Um escravo. Não era compatível com o modo com que ela tratava os
outros, a tirania do reinado provisório dela. Eu fui educada para ser uma
rainha sim, Flynn, mas também sou um ser humano com compaixão das pessoas.”
Flynn
assentiu. E, apesar de não ter visto, Mary sorriu. Talvez ela tivesse
simplesmente conseguido quebrar parte do muro que os separava. Claro que sempre
haveria o fato de que um era apenas um escravo e a outra era a Rainha da
França, mas parecia que ela estava um passo mais perto do que realmente era o
escravo. O que ele escondia de tão preciso ao ponto de deixar vulnerável um
príncipe?
Ele queria
pedir para ela que fosse direto ao ponto, que acabasse com a tortura que estava
dentro dele, mas a voz lhe faltava naquele momento. Não queria ser rude, mas
também não podia simplesmente fingir que não sentia nada. Ainda não havia
chegado naquele nível de perfeição. Era conciso, grosso em suas atitudes, mas
não havia chegado ao ponto em que ele não precisava fingir que não sentia,
ainda mais por uma mulher que não lhe ajudou quando ele clamou por ela.
E ao se
lembrar disse sentiu uma náusea forte. Seus dois braços abraçaram sua barriga,
como se isso fosse ajudar a conter tal sensação. Parecia que seu estômago
queria lançar fora tudo o que ele havia comido. Uma mistura de nojo com ódio de
si próprio. A mesma sensação da consumação que lhe acompanharia todos os dias
da sua vida, cada vez que ele pensava nisso. E seria assim por todo o tempo que
estivesse na terra.
Os devaneios
do escravo foram cortadas por um suspiro pesado vindo de suas costas. A rainha
parecia cansada. Talvez isso não fosse o tipo de reação que a mulher grávida
esperasse do escravo. Sabia que boa parte das pessoas naquele castelo, falariam
muito bem da simpatia do jovem, mas não era somente isso. Também de sua
inteligência e de sua maneira estratégica de ver a vida.
“Eu estava nervosa, estava apavorada
e, em parte, nem sabia o que eu estava fazendo. Era meu casamento. Eu viria
para uma terra estranha, sozinha, sem família, para ser coroada rainha. Você
consegue entender como isso é complicado.”
“Se não se importa, minha senhora, eu
não quero falar a respeito de família.” Disse fraco, porém verdadeiro. Ela queria falar sobre
família? Ele foi dado de presente à rainha quando tinha nove anos de idade. Que
viu sua família e amigos morrer e que quase se afogou para tentar escapar e
veio a pé de seu povoado até o reino,
arrastado por um cavalo e uma multidão de outros, como se ele fosse um animal
e, também, seguindo essa linha foi marcado. Aurélien era seu oásis no meio do
inferno. Era toda a parte boa da sua vida que agora parecia ruir lentamente.
“Tudo bem, Flynn.” Disse. “Minha dama de companhia chegou aqui e se encantou por você. E eu já
tinha escutado muito bem a respeito de você e de como você é uma pessoa agradável,
mas quando eu comentei com minha sogra, ela disse que melhor que eu cortasse as
esperanças dela uma vez que... que você já tinha uma dona. Mas não é disso que
eu quero falar com você, Flynn. Eu vim aqui pra falar do Aurélien. Como eu
disse, nunca vou ser capaz de compreender o que realmente há entre vocês dois
só que eu sei que é muito, muito forte. E, por mais que me doa dizer, Aurélien
não está comigo por amor.”
Flynn negou
com a cabeça. Discordava completamente dela. No entanto, não disse nada.
“Ele gosta de mim, tem respeito por mim. Ele me trata bem, me faz feliz,
mas não me ama. Seja realista, Flynn!”
Ela pediu com a voz um pouco mais aguda do que o garoto esperava. “E nem vai me amar tão cedo! Se chegar a
fazer, vai ser aquele amor fruto de uma convivência, que vem de respeito mútuo
e comparado ao de dois velhos que se casaram. Amor? Desses arrebatadores, capaz
de matar e morrer, enfrentar obstáculos e uma série de outras dificuldades,
não. Esse não.”
Um amor como
o de Flynn e Aurélien.
“Vocês foram feitos um para o outro,
minha senhora. Não haveria obstáculos suficientes para deter isso.”
Ela sorriu
docemente.
“Está errado e sabe disso.”
Odiava
aquela sensação com todas as forças. A
sensação de saber que estava perdendo o controle até de si próprio. Ao ponto de que sua rival pudesse simplesmente
ler tudo o que estava dentro dele. O que diria da Rainha Catharine então?
Engoliu em seco. Medroso das próprias sensações.
“O Aurélien te ama, senhora, ele só
não consegue demonstrar isso.”
Mecânico e frio como se, de repente, tivesse se tornado uma espécie de psicopata
que conhecia toda a teoria, mas a prática fosse um bloqueio. “Sabe,
um vulcão quando dorme... Ele não dá sinais de que vai acordar e quando o faz
sai devastando tudo o que tiver em sua frente. Então não pense uma besteira
dessas só porque ele não demonstra.”
Ela apenas
assentiu. Era uma bela analogia. “Flynn,
posso lhe confiar um segredo?” E não esperou a resposta dele para
continuar. “A gravidez está sendo um
pouco incômoda pra mim. Talvez difícil seja uma palavra mais apropriada. Eu
tenho passado muito mal e quase nunca saio da cama. Eu tenho medo, nesse
momento, Flynn. Muito medo de que algo de ruim aconteça ou comigo ou com a
criança. Tenho evitado o máximo que eu posso para que o Aurélien não tenha
desgosto comigo uma vez que esse reino já lhe dá problemas o suficiente.”
O escravo
apenas assentiu. “O que realmente quer
de mim?”
“Não é nada específico.” Disse com metade de um sorriso. “Eu só não quero que você me veja como
uma espécie de bruxa má. Porque no fundo, Flynn, você sabe que eu não sou. Não sou uma mulher
tão manipulável quanto você disse naquele dia. Eu posso ser uma aliada, porque
eu quero muito bem ao Aurélien e, de alguma forma, ele precisa de você.”
“Se a senhora me der licença...” Disse ele fazendo uma pequena reverência
antes de tentar sair da baia e ter o braço segurado pela rainha. Flynn ergueu a
sobrancelha, como quem pergunta se havia algo de errado com ela.
“Eu não sou quem você pensa.”
“Não vai gostar de quem eu acredito
que a senhora seja.”
Falou puxando o próprio braço. Não tinha realmente mais nada a perder. “Não me venha com essa de que posso tê-la
como aliada, porque quando eu mais precisei da sua força e intervenção, rainha a senhora sequer me ouviu. Me
deixou apanhar na porcaria do chão do quarto.”
“O que queria que eu fizesse?”
Flynn sorriu
sem graça, preferindo se recolher em seu mais profundo e mortal silêncio. A
mulher tentou convencer Flynn a falar, mas não se ouviu mais nenhuma palavra.
Ele não queria ter aquela conversa – ou algo semelhante com Aurélien. Sempre
quis poupar seu amor da dor, ainda que o matasse por dentro. “Se ponha no meu
lugar, senhora? Quando essa criança nascer, vai simplesmente sentar-se e
assistir algo tão íntimo como isso? Pra
quê? Pela frieza de um acordo de negócios? Isso não tem razão de existir,
senhora. É uma tradição que já está mais do que na hora de ser quebrada.
Talvez, somente um talvez, se você e...se você conseguir pensar vai decifrar o
motivo do meu total desprezo e desrespeito pela senhora ou pelo reino da
França. Agora, se me der licença...”
Flynn
simplesmente foi embora sem olhar para trás. Quase fez besteira.Quase.
Nenhum comentário:
Postar um comentário